O carro
Por caminhos comuns com novas baterias, contra o imediatismo da próxima viagem.
Há por aí um carro na política portuguesa. Um carro importante e insubstituível, essencial para fazer os caminhos que temos de percorrer em conjunto. O carro mostra ter problemas de bateria: há receio de que a energia esteja a escassear.
Seria avisado parar um pouco, tomar o tempo necessário para lhe substituir a bateria com o engenho de todos os que conhecem o mister de dar novas energias a velhos carros e prosseguir depois caminhos mais sólidos. Os seus donos, porém, parecem apostados em seguir um estratégia diferente: sentindo a bateria a falhar, temem que o carro pare e não mais volte a ligar. Atiram-se por isso na vertigem imediata da próxima viagem, confiantes de que não parar é a melhor estratégia para lhe prolongar o período útil de vida.
Têm razão? Talvez. Em tempos como este, não cometo a imprudência de dar lições a ninguém, muito menos a quem mantém um carro tão importante em condições tão adversas. Mas gostava de ver uma ação que fosse para lá do remendo. Ninguém se sente confiante a embarcar num carro que nos pode deixar apeados a qualquer momento. O tempo necessário para mudar uma bateria pode parecer longo, mas também longo e menos prazeroso é o ato de o “empurrar a ver se pega” a meio de uma viagem.
A diferença está no horizonte. Se é para “juntar forças”, que se o faça na solidez de uma nova bateria para os milhares de quilómetros que hão-de vir em vez do empurrão de recurso, que pouco mais garante do que chegar à estação de serviço mais próxima. Onde, para mais, há o sério risco de o mecânico de turno nos informar que já não há arranjo possível.
Para lá do eterno presente, da urgência da nova viagem, parar um pouco e pensar com quem assim esteja disponível. Estou certo que haverá quem não falte à chamada para tomar o tempo necessário para restaurar um clássico que se mantém relevante. Assim os chamem com esse fim. Para empurrar um carro de bateria já débil, não vale a pena.
Enfim, e em suma, “um passo atrás são dois em frente” e tal e coiso. Cá estaremos.


